Como as alterações climáticas estão a mudar as regras da construção

Como as alterações climáticas estão a mudar as regras da construção

Fonte: Imagem por Tumisu

Estamos a construir coisas com base num clima que já não existe

Recentemente, com as inundações em Valência (Espanha), e ultimamente em Portugal, ficou exposto aquilo que há muito se sabia, ainda antes de terem sido construídas as zonas mais críticas.​

O planeamento urbano continua incapaz de disciplinar a pressão da construção nos locais onde se concentram as principais comodidades dos centros urbanos.​

Não existe uma solução mágica para estes problemas, apesar do conhecimento acumulado sobre eles.​

Envolvem múltiplas circunstâncias que se alinham de forma complexa, e a dimensão das catástrofes atuais mostra o quão difícil é alterar este quadro.​

Quando não fazemos o necessário, a natureza lembra que não negocia. Queima, inunda, arrasa, destrói e, paradoxalmente, abre espaço para reconstruir melhor.​

Não porque seja benevolente, mas porque é indiferente.​

A esperança está em conseguirmos divergir da forma como fazíamos as coisas, reduzindo a probabilidade de novos cenários de destruição massiva.​

O que antes era exceção climática tornou-se regra; o que era previsível tornou-se instável.​

Critérios de Planeamento Urbano e Florestal

Vivemos hoje um paradoxo urbano demasiado evidente para continuar a ser ignorado: estamos a construir cidades para um clima que já não existe.​

As grandes urbanizações são organismos complexos, movidos por forças económicas, políticas e sociais que raramente acompanham o ritmo da natureza.​

Estas forças são difíceis de contrariar e quase impossíveis de reverter, mas ainda assim há espaço para intervir.​

Identificar os problemas é abrir caminho às melhores decisões, porque as cidades crescem onde há procura, expandem-se onde há investimento e consolidam-se onde há retorno.​

A pressão imobiliária concentra-se nos centros urbanos porque é ali que estão os serviços, os empregos, a mobilidade, a cultura e as comodidades do quotidiano.​

Enquanto houver procura, haverá construção, mesmo quando o território já dá sinais claros de que não aguenta mais.​

A impermeabilização excessiva, a ocupação de zonas de risco e a destruição de ecossistemas naturais, que antes funcionavam como barreiras de proteção, resultam de decisões acumuladas ao longo de décadas.​

Agora, com o clima a mudar mais depressa do que a capacidade de adaptação, as cidades começam a sofrer essas consequências de forma cada vez mais visível.​

Inundações urbanas

magem de  Shary Reeves

Como podemos intervir

Esta é uma questão em permanente evolução, por isso vale a pena focar nos aspectos mais próximos e práticos que estão ao nosso alcance.​

O futuro urbano não será uma continuação linear do passado: será inevitavelmente, uma reinvenção.​

Quanto mais cedo aceitarmos isso, mais rapidamente poderemos construir cidades que não sejam apenas funcionais, mas resilientes e capazes de conviver com o clima.​

Cidades que não sejam palco de catástrofes anunciadas, mas espaços onde a vida possa continuar com dignidade.​

As decisões sobre como perspetivar e construir o espaço residencial são oportunidades diretas de mudança.​

A escolha de onde viver, como construir, que materiais usar, como gerir energia e água e como ocupar o solo tem impacto real; cada decisão individual contribui para o desempenho coletivo.​

Compreender o terreno é essencial.​

É importante verificar se a área está associada a leitos de cheia, zonas húmidas ou corredores de drenagem natural que possam ter sido artificialmente interrompidos, porque muitas catástrofes ocorrem precisamente onde estes fatores foram ignorados.​

Consultar entidades locais e cruzar informação histórica é hoje tão importante como escolher o arquiteto ou o empreiteiro.​

Em áreas sujeitas a cheias, elevar a cota de implantação, reforçar impermeabilizações, criar zonas técnicas acima do nível do solo e garantir uma drenagem eficiente são medidas fundamentais.​ (conceito cidades esponja)

Escolher materiais e soluções construtivas adaptadas ao novo contexto climático é outro passo crucial.​

Em zonas propensas a incêndios, materiais resistentes ao fogo, fachadas minerais, coberturas metálicas, telhados reforçados, caixilharias com certificação térmica e sistemas de ventilação protegidos, podem ser a diferença entre perder tudo ou manter a estrutura intacta.​

Organizar a vegetação exterior, criar faixas de proteção, utilizar espécies menos inflamáveis e manter o terreno limpo reduz significativamente o risco de propagação do fogo.

Pequenas decisões acumuladas criam grandes diferenças na resiliência da habitação, e cada pessoa tem aqui uma palavra a dizer.​

Conforto e resiliência da construção

A orientação solar do edifício, o dimensionamento das janelas e a ventilação natural são fatores determinantes para o conforto e a eficiência energética.​

Terrenos bem orientados permitem reduzir consumos, melhorar a qualidade de vida e adaptar melhor a construção às exigências do clima atual.​

Vale também a pena considerar a proximidade de infraestruturas como antenas de telecomunicações ou linhas de alta tensão, bem como a presença de correntes de água subterrâneas, frequentemente associadas a campos magnéticos intensos.​

Há quem defenda que essas condições podem contribuir para uma sensação de fadiga mesmo após o descanso, o que as torna relevantes para o bem-estar em casa.​

Resiliência e flexibilidade devem integrar a nova forma de pensar o urbanismo.​

Projetos que prevejam adaptações futuras de regras e estruturas reforçadas contra eventos extremos constroem não apenas edifícios, mas formas mais robustas de habitar o território.​

Fontes:

Ecologia Urbana e resiliência.pdf
Integração da adaptação às alterações climáticas e da resiliência às mesmas em diferentes setores e políticas locais


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