Como as alterações climáticas estão a mudar as regras da construção

Fonte: Imagem por Tumisu
Estamos a construir coisas com base num clima que já não existe
Recentemente, em Valência (Espanha), ficou exposto aquilo que há muito se sabia, ainda antes de terem sido construídas as zonas mais críticas.
O planeamento urbano continua incapaz de disciplinar a pressão da construção nos locais onde se concentram as principais comodidades dos centros urbanos.
Não existe uma solução mágica para estes problemas, apesar do conhecimento acumulado sobre eles.
Envolvem múltiplas circunstâncias que se alinham de forma complexa, e a dimensão das catástrofes atuais mostra o quão difícil é alterar este quadro.
Quando não fazemos o necessário, a natureza lembra que não negocia. Queima, inunda, arrasa, destrói e, paradoxalmente, abre espaço para reconstruir melhor.
Não porque seja benevolente, mas porque é indiferente.
A esperança está em conseguirmos divergir da forma como fazíamos as coisas, reduzindo a probabilidade de novos cenários de destruição massiva.
O que antes era exceção climática tornou-se regra; o que era previsível tornou-se instável.
Critérios de Planeamento Urbano e Florestal
Vivemos hoje um paradoxo urbano demasiado evidente para continuar a ser ignorado: estamos a construir cidades para um clima que já não existe.
As grandes urbanizações são organismos complexos, movidos por forças económicas, políticas e sociais que raramente acompanham o ritmo da natureza.
Estas forças são difíceis de contrariar e quase impossíveis de reverter, mas ainda assim há espaço para intervir.
Identificar os problemas é abrir caminho às melhores decisões, porque as cidades crescem onde há procura, expandem-se onde há investimento e consolidam-se onde há retorno.
A pressão imobiliária concentra-se nos centros urbanos porque é ali que estão os serviços, os empregos, a mobilidade, a cultura e as comodidades do quotidiano.
Enquanto houver procura, haverá construção, mesmo quando o território já dá sinais claros de que não aguenta mais.
A impermeabilização excessiva, a ocupação de zonas de risco e a destruição de ecossistemas naturais, que antes funcionavam como barreiras de proteção, resultam de decisões acumuladas ao longo de décadas.
Agora, com o clima a mudar mais depressa do que a capacidade de adaptação, as cidades começam a sofrer essas consequências de forma cada vez mais visível.
Como podemos intervir
Esta é uma questão em permanente evolução, por isso vale a pena focar nos aspectos mais próximos e práticos que estão ao nosso alcance.
O futuro urbano não será uma continuação linear do passado: será inevitavelmente, uma reinvenção.
Quanto mais cedo aceitarmos isso, mais rapidamente poderemos construir cidades que não sejam apenas funcionais, mas resilientes e capazes de conviver com o clima.
Cidades que não sejam palco de catástrofes anunciadas, mas espaços onde a vida possa continuar com dignidade.
As decisões sobre como perspetivar e construir o espaço residencial são oportunidades diretas de mudança.
A escolha de onde viver, como construir, que materiais usar, como gerir energia e água e como ocupar o solo tem impacto real; cada decisão individual contribui para o desenho coletivo.
Compreender o terreno é essencial.
É importante verificar se a área está associada a leitos de cheia, zonas húmidas ou corredores de drenagem natural que possam ter sido artificialmente interrompidos, porque muitas catástrofes ocorrem precisamente onde estes fatores foram ignorados.
Consultar entidades locais e cruzar informação histórica é hoje tão importante como escolher o arquiteto ou o empreiteiro.
Em áreas sujeitas a cheias, elevar a cota de implantação, reforçar impermeabilizações, criar zonas técnicas acima do nível do solo e garantir uma drenagem eficiente são medidas fundamentais. (conceito cidades esponja)
Escolher materiais e soluções construtivas adaptadas ao novo contexto climático é outro passo crucial.
Em zonas propensas a incêndios, materiais resistentes ao fogo, fachadas minerais, coberturas metálicas, telhados reforçados, caixilharias com certificação térmica e sistemas de ventilação protegidos, podem ser a diferença entre perder tudo ou manter a estrutura intacta.
Organizar a vegetação exterior, criar faixas de proteção, utilizar espécies menos inflamáveis e manter o terreno limpo reduz significativamente o risco de propagação do fogo.
Pequenas decisões acumuladas criam grandes diferenças na resiliência da habitação, e cada pessoa tem aqui uma palavra a dizer.
Conforto e resiliência da construção
A orientação solar do edifício, o dimensionamento das janelas e a ventilação natural são fatores determinantes para o conforto e a eficiência energética.
Terrenos bem orientados permitem reduzir consumos, melhorar a qualidade de vida e adaptar melhor a construção às exigências do clima atual.
Vale também a pena considerar a proximidade de infraestruturas como antenas de telecomunicações ou linhas de alta tensão, bem como a presença de correntes de água subterrâneas, frequentemente associadas a campos magnéticos intensos.
Há quem defenda que essas condições podem contribuir para uma sensação de fadiga mesmo após o descanso, o que as torna relevantes para o bem-estar em casa.
Resiliência e flexibilidade devem integrar a nova forma de pensar o urbanismo.
Projetos que prevejam adaptações futuras de regras e estruturas reforçadas contra eventos extremos constroem não apenas edifícios, mas formas mais robustas de habitar o território.
Fontes:
Ecologia Urbana e resiliência.pdf
Integração da adaptação às alterações climáticas e da resiliência às mesmas em diferentes setores e políticas locais